Artigo: Falta definir o bom jornalismo e o que é uma história completa

Por Alberto Dines

O oportuno festival de resenhas, reflexões, crônicas e reminiscências que antecipou a aula-magna sobre jornalismo investigativo produzida pela equipe do Globe, de Boston, sugeriu a existência simultânea de consensos retóricos, informais e drásticos dissensos, enrustidos.

Saudado em prosa e verso pelo primeiro escalão de pensadores da imprensa, o “bom jornalismo” revivido no admirável filme não conseguiu materializar-se como conceito. O bom jornalismo seria o que se convencionou designar como tal ou exige qualificações mais estritas e critérios menos vagos ?

Tomando a antológica produção como referência — o bom jornalismo seria o esforço para investigar, coletar e dar sentido a informações sigilosas e depois escancará-las para que tudo se esclareça ? Ou é um ato de bravura  para desmascarar poderosos interesses escondidos nos bastidores do poder ?

Foto Guardian / CC

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Em outras palavras: bom jornalismo é o empenho de  proclamar verdades ou a capacidade de  juntar  os elementos de uma história de modo torná-la credível e correta, dentro de uma preocupação básica com a ética.

Fazer barulho ou fazer justiça, eis a questão.

A revista Época ofereceu excelente contribuição  ao debate sobre a natureza do bom jornalismo nas duas edições mais recentes. Em matéria de capa e grande estardalhaço na edição 918 de 18/1 o semanário  denunciou a participação de pessoas próximas da presidente Dilma Roussef — seu ex-marido e amigo, o advogado gaúcho Carlos Araújo — intermediando a obtenção de favores oficiais para socorrer um dos empreiteiros encalacrados no petrolão.

Matéria precária, ligeira, claramente insuficiente, exigiu do diretor de redação da revista uma  embalagem caprichada:  aproximar a façanha do Globe à de Época através de  um texto introdutório redigido com rara modéstia — “Em busca da história completa”.

Se no lançamento do filme resenhistas e opinionistas não conseguiram definir em que consiste o bom jornalismo, agora experimentava-se esclarecer  segunda abstração — a história completa. Quem é que define o momento em que uma carga de informações está pronta para ser publicada e produzir os imperiosos desdobramentos ?

O enredo de “Spotlight” é extremamente simples, despretensioso: resume-se à descrição do trabalho anônimo, penoso e solitário da força-tarefa do Globe  ao longo de seis meses para investigar,  coletar, encadear e formatar  as denúncias contra os 87 padres-pedófilos de Boston e os seus protetores na hierarquia católica dos EUA e da Santa Sé.

Quando as rotativas começam a imprimir as primeiras revelações, acaba o filme. Seguiram-se outras 599 reportagens no mesmo jornal. Com simplicidade exemplar, diretor, roteiristas, atores e personagens reais explicaram como é possível identificar a essência do  bom jornalismo.

A reportagem de capa da Época edição 918 não obteve qualquer repercussão. Na edição seguinte da revista,  a de número 919″, nem uma palavra. Evidentemente não era uma história completa.

Fonte: Observatório da Imprensa

Alberto Dines é jornalista, escritor e cofundador do Observatório da Imprensa

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